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casepaga

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31.10.16

VIVA A QUINTA BRIGADA


antonio garrochinho





Mesmo os "azeitonas" estavam sangrando
Enquanto a batalha para Madrid trovejou por diante
A verdade e o amor contra a força do mal
Irmandade contra o clã fascista

VÍDEO

31.10.16

Escondido no Brasil e traído pelo Facebook até a família burlou


antonio garrochinho




Mediador de seguros que inventou produto financeiro com 10% de juros ao ano andava fugido às autoridades desde 2012. Comprou restaurante em Manaus, publicou uma foto num concurso e foi apanhado.

Acusado de ter desviado 600 mil euros a clientes e à seguradora Zurich, um mediador natural de Cinfães foi capturado no Brasil, onde tinha comprado um restaurante. O paradeiro do homem, de 41 anos, em fuga há quatro anos, foi revelado pelo Facebook, onde ficou exposto depois de ter participado em concursos de cozinha.

João Almeida, ex-mediador da Zurich com poderes reconhecidos pelo Instituto de Seguros de Portugal e com contrato com aquela companhia de seguros, estava escondido há quatro anos na zona de Manaus, no Brasil, onde montou um restaurante chamado "A cozinha do português". O estabelecimento ainda mantém uma página de Facebook e um site na Internet, onde era promovido desde o bacalhau até a francesinha.

E foram essas promoções que acabaram por trair João Almeida. De acordo com informações recolhidas pelo JN, as vítimas do mediador de seguros descobriram-no através do Facebook e informaram as autoridades, que solicitaram a colaboração das autoridades brasileiras para o deter. Nesta altura, ainda aguarda a extradição para Portugal e está preso no Departamento Federal do Estado de do Amazona.

Acusado de desviar 600 mil euros

Em Portugal, João Almeida está acusado de burla, falsificação, abuso de confiança e ainda emissão de cheque sem provisão. A acusação do Ministério Público (MP) garante que o mediador desviou cerca de 600 mil euros e já levava uma vida de luxo, antes de fugir para o Brasil.

O arguido angariava contratos de seguros novos para a Zurich, mas também podia celebrar contratos de seguros de vida, que incluíam contratos de investimentos. Garante a acusação que, entre 2003 e 2004, o arguido, que tinha acesso aos documentos, formulários e papel timbrado da seguradora, começou a pôr em prática um plano para ficar com o dinheiro dos clientes da Zurich.

Familiares acusam-no de burla

Segundo o MP, a primeira vítima foi uma tia do arguido, abordada em novembro de 2004. Convenceu-a que a Zurich tinha acabado de lançar um plano de investimento com juros a 10% ao ano. Chegou mesmo a apresentar à mulher documentação, em papel timbrado da Zurich, onde constavam as modalidades do investimento. Estava lá escrito que o cliente receberia 10% ano, que a apólice tinha duração de 12 anos e que os resgates parciais não tinham qualquer tipo de penalização. Todos os documentos eram forjados.

A tia entregou-lhe 45 mil euros. Só percebeu a burla em 2009, quando pediu o resgate total do dinheiro e nunca mais ouviu falar do sobrinho. No entanto, conseguiu reaver 30 500 euros em resgates parciais que o arguido lhe foi entregando ao longo dos anos, ao que tudo indica usando dinheiro que sacou a outros com o esquema. Outra vítima foi uma prima do arguido, filha da primeira burlada. Ficou sem 3500 euros.

Usando o mesmo esquema, conseguiu burlar mais duas pessoas em 300 mil euros, 150 mil a cada uma. Ambas pensavam tratar-se de uma proposta credível e economicamente viável. Também conseguiu que um cliente lhe entregasse 75 mil euros, ao longo de quatro anos.

Em vários casos, na tentativa de evitar as suspeitas dos clientes, o mediador ia entregando falsos recibos de rentabilidade.








http://www.jn.pt

31.10.16

Cristas, a pata choca e as licenciaturas


antonio garrochinho


Eu ia escrever um post a condenar a atitude do adjunto e do chefe de gabinete que aldrabaram o seu curriculum, inventando licenciaturas que nunca obtiveram.  Obviamente demitiram-se... ou foram demitidos.
Ia dissertar sobre a falta de ética dos autores das fraudes, ironizar com o facto de o chefe de gabinete, ( que inventou duas licenciaturas) estar a candidatar-se ao Guiness, chamar-lhes aspirantes a Relvas e aconselhar os ministros a serem mais criteriosos na escolha do pessoal de gabinete.
Acontece, porém, que quando ia começar a escrever o post, vejo a notícia de que Cristas pede a demissão do ministro da educação, por ter contratado para o gabinete um fulano que aldrabou as habilitações.
Eu acho que é preciso ter uma lata sem limites e uma falta de vergonha no focinho,para uma ex-ministra que conviveu alegremente no governo com Miguel Relvas, um licenciado de equivalências na Universidade do amiguismo, vir reclamar a demissão do ministro por causa da fraude de um "colaborador".
Cristas baixou ao nível da pata choca. Sem nível.
E foi assim que um post que devia ser uma forte crítica ao governo, se transformou numa crítica a Cristas. A culpa não é minha. É dela. Enquanto não souber fazer oposição a sério, está a afundar o CDS. 
Em tempo:para dizer que a corja de pulhas com carteira de jornalista, que fazem política no Observador e vendem como jornalismo, mentiu ao escrever que Tiago Brandão Rodrigues sabia da licenciatura falsa de Nuno Felix. Essa escumalha tinha apenas, como propósito, provocar a revolta da opinião publica contra o ministro da educação.Vao-se lavar, badalhocos!

cronicasdorochedo.blogspot.pt

31.10.16

Como a direita pensa


antonio garrochinho




Há dias, deram-me a conhecer um texto de Milton Friedman – O Neoliberalismo e as suas perpectivas- , de 1951, em plena Guerra Fria.


Nesse texto, curto e claro como água, Friedman anuncia que “o palco está montado para o crescimento de uma nova corrente que substitua a velha” ideia defensora do socialismo, entendido como colectivista, fruto de uma forte presença do Estado na economia.

O conceito dessa nova maré de opinião pública era então perfeitamente definido: 

 “O neoliberalismo aceitaria a ênfase liberal do séc XIX da importância fundamental do indivíduo, mas substituiria o objectivo do séc XIX de laissez-faire, como um meio para esse fim, pelo objectivo da ordem concorrencial. Procuraria o uso da concorrência entre produtores para proteger os consumidores da exploração [!], da concorrência entre empregadores para proteger trabalhadores e proprietários [!!], e concorrência entre consumidores para proteger as empresas [!]. O Estado policiaria este sistema, estabeleceria condições para favorecer a concorrência e prevenir os monopólios e aliviar a miséria aguda e a angústia. Os cidadãos seriam protegidos contra o Estado pela existência de um mercado privado livre; e contra si próprios pela preservação da concorrência.”
Ora, todos sabemos aonde levou esta doutrina que, passados 65 anos, ainda vigora e em força. Algo diferente da teoria: a defesa do indivíduo justificou uma maior concentração de riqueza nalguns, a desigualdade e o nascimento de firmas transnacionais, cujo poder rivaliza e se sobrepõe ao poder dos próprios Estados.

Mas o que é interessante é verificar que esta direita económica é preserverante e reciclável, nunca esquecendo ao longo dos tempos o seu leit-motiv de fazer tudo contra o socialismo. Libertar ao máximo - egoisticamente - a contribuição individual para um colectivo (e aí os mais ricos têm mais a perder), porque, supostamente, essa libertação da obrigatória interjuda num colectivo social trará mais benefícios para a sociedade, tida como um somatório de indivíduos egoístas. Mas, claro, ajuda mais os ricos do que os pobres, porque os mais ricos são mais empreendores e dão emprego aos mais pobres. Outra versão daquela máxima tão velha e ainda tão usada: São as empresas que criam o emprego. 

E a Segurança Social é um caso exemplar das ideias matrizes da direita.

1. Uso indevido das verbas da Segurança Social para fins outrosUm dos aspectos frisados na declaração de voto de Boaventura Sousa Santos, Maria Bento, Maldonado Gonelha e Bruto da Costa no Livro Branco da Segurança Social, em Janeiro de 1998, foi o desprezo dos governantes pelo equilíbrio e sustentabilidade do sistema de protecção social, reflectido no incumprimento pelo Estado da Lei de Bases da Segurança Social de 1975 a 1995 (sobretudo por Cavaco Silva). A preços de 1997, a dívida ao sistema era de 5,9 mil milhões de contos (quase 30 mil milhões de euros). Na comissão do Livro Branco, Diogo de Lucena e Miguel Gouveia desvalorizaram esse tema ao afirmar que não tinha "existência comprovada” e que “falar de dívida do Estado é retórica para aumentar os impostos”.

Ora, no governo PSD/CDS, aconteceu aparentemente o contrário. Veja-se o que vem no anexo ao relatório do Orçamento de Estado para 2017 sobre a sustentabilidade do sistema:

O Estado sobrefinanciou a Segurança Social - através de transferências extraordinárias - como forma de aumentar os seus excedentes, por forma a serem canalizados para o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, de modo a ser usado para comprar títulos de dívida pública, compra devidamente autorizada por uma alteração legal - de última hora - que alargou a percentagem de investimento nesses activos. Foi o tal decreto aprovado por Vítor Gaspar nos seus últimos dias no Ministério das Finanças (aqui e aqui)


2. Acesso a um bolo chorudo de contribuições sociais sem nunca explicar como a segurança social não perde dinheiro: Este objectivo vem geralmente a propósito do tema recorrente da insustentabilidade da Segurança Social, em que se frisa sempre a redução do número de activos por pensionista, mas nunca defendendo uma política de pleno-emprego.

Relendo as declarações de voto do Livro Branco, António Correia de Campos – que presidia à comissão, foi ministro do governo Sócrates e é actualmente o presidente do CES – elogiou a solução do plafonamento por “aliviar financeiramente o sistema”, “introduzir uma mudança saudável na mentalidade assistencialista e de dependência do Estado”, “aumentar a equidade social por excluir a responsabilidade da cobertura de pagamento as pensões desprporcionalmente altas” e, ainda, “aumentar capital para animação da actividade económica pelo mercado de capitais”.  

Diogo de Lucena e Miguel Gouveia defendiam-no porque “corresponderia a um aumento sensível dos rendimentos para os reformados”, defendiam um “plafonamento que tivesse uma componente vertical mesmo para baixos salários” e achava que “precisamos de um seguro para o desemprego”, com a introdução de “co-seguros e franquias” contra os “usos perversos” e “risco moral” da prestação, porque o “o problema da fraude no subsídio de desmeprego é endémico”. E o mesmo para a saúde e para invalidez.  

Luís Filipe Pereira, ex-ministro de Cavaco Silva, de Durão Barroso e Santana Lopes, ex-presidente do CES e dirigente do grupo Mello, defendia o mesmo plafonamento, como “única forma (...) de garantir uma expressão significativa de capitalização de financiamento do sistema”, opção “inefastável”, com “vantagens importantes ao nível da dinamização do mercado de capitais e de financiamento da economia”.

Pois, passados quase 20 anos, o tema - sem ter sido concretizado, e sem estudos dos seus impactos financeiros - continua presente nos programas da direita. O bolo de contribuições representa actualmente 15 mil milhões de euros.

3. Defesa das pensões mínimas como forma de reduzir o papel do Estado na protecção das pensões mais baixas. Desde sempre, a direita tem preferido vangloriar-se de ter aumentado em uns euros as pensões mais baixas entre as pensões mínimas ou sociais, esquecendo-se sempre de frisar que, entretanto, baixou o Complemento Solidário para Idosos de 5022 para 4049 euros (o que corresponde a um corte de 69 euros mensais), e ainda por cima apertando as regras da condição de recursos, o que retirou apoio a dezenas de milhar de pessoas. Esta estratégia tem como condão de levar os futuros beneficiários a fazer menos descontos sociais ("Para quê, se não vou ter pensão?"), tudo contribuindo para que o Estado se encarregue apenas de um mínimo de subsistência dos cidadãos, com o mínimo da presença "colectiva" na sociedade.

4. A opção pelas contas individuais. Com mais ou menos variâncias, a ideia redunda numa desarticulação do funcionamento do sistema, baseado numa solidariedade colectiva intergeracional, em que os activos pagam a pensão de quem se reforma. Se os primeiros pensarem apenas em si, os segundos serão afectados. A ideia nunca foi concretizada, nem estimados os custos da sua aplicação. Em 1998, Diogo de Lucena e Miguel Gouveia escreveram, um inteiro capítulo da declaração de voto ao Livro Branco, defendendo que “as contas individuais são uma estratégia que não deveria ter sido secundarizada”. Passados quase 20 anos, o tema é ainda incipientemente tratado, mas não deixou de estar presente nos programas eleitorais à direita.

5. E finalmente o Rendimento Básico. Em vez de uma presença do Estado, seria concedido um rendimento bruto a cada cidadão como um limiar básico de existência, retirando-se os apoios sociais. Cálculos feitos, um rendimento de 420 euros mensais representaria um encargo anual de 61,2 mil milhões de euros. Se fosse de 700 euros, o encargo seria de 101,9 mil milhões. Impraticável.

A direita é assim: nunca se esquece que o socialismo é o inimigo porque o egoísmo é o seu forte.

ladroesdebicicletas.blogspot.pt

31.10.16

A CGD


antonio garrochinho



Um governo poderá aumentar alguns impostos, criar incentivos e adotar muitas outras medidas, mas poucas decisões dos governos terão mais impacto nas empresas e no consumo do que as políticas dos bancos. Em Portugal uma boa parte das empresas depende do financiamento dos bancos e o padrão de consumo de muitos particulares depende igualmente do acesso ao crédito. A intenção de um governo de promover o consumo pode ser contrariada pelos bancos, se estes orientarem os recursos financeiros para o financiamento das empresas. De igual modo, a intenção governam,ental de estimular o investimento pode confrontar-se com uma atitude mais conservador, por parte dos bancos, no financiamento das empresas.

As decisões dos bancos têm um grande impacto na economia, destas decisões depende o investimento das empresas, o tipo de apostas setoriais da economia, os níveis de poupança e do consumo. Se a banca apostar no setor da construção civil para investir os seus recursos, é provável que a economia tenda a crescer dinamizada por este setor. Se a banca n~qo quiser correr risco com novos projetos ou com novas empresas, o empreendedorismo dificilmente ganha expressão.

É neste contexto que a CGD ganha uma especial importância, quase sem bancos nacionais, como bancos como o BCP a atravessarem uma fase de vacas magras, com a instabilidade a que temos assistido no BPI e com o BES quase “congelado” pouco mais resta ao país do que a CGD. Não se sugere necessariamente que a CGD oriente a sua gestão em função do programa económico do governo. Mas pode ser rigorosa na concessão de crédito, promovendo as empresas cumpridoras, como pode ser equilibrada na gestão dos recursos, evitando tendências especulativas e lucros fáceis.

A CGD não é apenas um banco público, é também o maior banco comercial português e da forma como é gerido depende muito o futuro da economia, É importante que a CGD apoie a economia, que seja cuidadoso no crédito ao consumo, que seja equilibrado na forma como financia o investimento, que aposte nas empresas mais competitivas e que apoiem as regras, que no momento de correr riscos o faça apostando no empreendedorismo, em vez de apostar em "berardices", golpes ou negócios obscuros.

É isto que se espera da CGD, é isto que leva muitos a defenderem que a CGD se mantenha como banco público. E isto exige uma gestão competente e honesta. Será que todos os partidos que estão tomando posições em relação à CGD estão preocupados com o seu futuro, ou há por aí quem espere que se registe na CGD a desgraça de que estavam à espera com a notação da DBRS?

O mais importante nesta gestão da CGD não são os argumentos dignos de telenovelas que por aí se vão discutindo, o que importa mesmo é saber se a CGD vai ser bem ou mal gerida, se vai usar os recursos financeiros a que tem acesso em favor do país ou com golpes duvidosos, se vai dar lucros que financiem o OE ou se daqui a alguns anos empurra o país para mais uma bancarrota. Por aquilo que se ouve, há políticos que parecem estarem contra uma gestão competente da CGD e tudo fazem para que o banco fique paralisado mais meia dúzia de meses.

jumento.blogspot.pt

31.10.16

Quando Amadeo de Souza-Cardozo era “como certos políticos” e quase ninguém o percebia


antonio garrochinho

No Museu Soares dos Reis recria-se a única exposição do modernista no Porto, onde até foi agredido. Segue-se Lisboa. Amadeo morreria dois anos depois, aos 30. Ficou esquecido por demasiado tempo.























A 1 de novembro de 1916, Amadeo de Souza-Cardoso inaugurou a sua primeira exposição individual em Portugal, no Salão de Festas do Jardim Passos Manuel, no Porto. A população, ainda pouco familiarizada com a arte moderna, acorreu em peso para elogiar, criticar e até cuspir nas obras do pintor português. 100 anos depois, já não há Jardim Passos Manuel — foi demolido e, no seu lugar, está o Coliseu do Porto. Mas a obra de Amadeo Souza-Cardoso resistiu ao tempo e, das 114 peças expostas na altura, 81 vão estão no Museu Nacional Soares dos Reis, a partir desta terça-feira, 1 de novembro de 2016.
Aos 25 anos, Amadeo de Souza-Cardoso, natural de Manhufe, em Amarante, já tinha exposto ao lado de Modigliani, Duchamp, Matisse, Picasso, Kandinsky e Van Gogh. Em 1912, chegou ao Grand Palais, em Paris, Em 1913, integra a primeira exposição de arte moderna da América, o Armory Show, em Nova Iorque, com oito trabalhos (vende três). Em Berlim, é convidado para expor coletivamente no I Salão de Outubro de Berlim. Quando rebenta a I Guerra Mundial, em 1914, sente que é hora de regressar à terra natal, após oito anos a viver em Paris. Não sabia ainda que, de certa forma, também iria ter a sua guerra em Portugal. Uma guerra artística, de modernismo versusacademia.
No final do ano de 1916, Amadeo realiza então as suas únicas mostras individuais, primeiro no Porto, no Salão de Festas do Jardim Passos Manuel, entre 1 e 12 de novembro, e depois em Lisboa, na Liga Naval, de 4 a 18 de dezembro. Em Lisboa houve menos confusão porque o artista escolheu “um espaço mais elitista”, explica ao Observador Marta Soares, que divide com Raquel Henriques da Silva a curadoria da exposição Amadeo de Souza-Cardoso, Porto-Lisboa-1916-2016, que agora se inaugura. No Porto, foi diferente. Numa carta enviada ao crítico norte-americano Walter Pach, Amadeo de Souza-Cardoso relata que, em 12 dias, passaram 30 mil visitantes pelo Passos Manuel.
A revista Orpheu tinha saído em 1915, o modernismo dava os seus primeiros passos em Portugal e houve quem tivesse gostado. Houve também quem não tivesse compreendido e quem se tenha revoltado com tamanha afronta à pintura naturalista e romântica que era a norma na altura. Marta Soares não consegue garantir que as referências históricas que existem a cuspidelas às obras não sejam uma metáfora. Mas há uma carta que o poeta e escritor Teixeira de Pascoaes escreve a Amadeo, a 9 de fevereiro de 1917, que prova que ele foi agredido na rua (que incluiu uma visita ao hospital). A carta pode ser vista na exposição e a mensagem é curta: “Meu querido Amadeo Cardoso: Soube agora da estúpida agressão de que foi víctima. É com a maior indignação que o abraço e lhe desejo rápida cura. Seu muito amigo e admirador, Teixeira de Pascoaes.
amadeo souza-cardoso a vida dos instrumentos
Ambos os quadros se chamam “A Vida dos Instrumentos”. No catálogo, Amadeo juntava-os. Na exposição do Porto e de Lisboa, eles também surgem inseparáveis. 
Amadeo foi o curador de si mesmo. Escolheu o local, tratou do transporte e da montagem das obras, fez o catálogo e ainda visitas guiadas aos jornalistas. A importância do Jardim Passos Manuel, pela sua abertura a diferente classes, a sua centralidade e a gratuitidade de entrada no Salão de Festas, ajuda a explicar o sucesso e a disparidade de opiniões que se viveu na Invicta, explica Marta Soares. É por isso que a mostra abre com uma recriação das dinâmicas do Passos Manuel. “Criamos um contexto para preparar o visitante”, adianta. Aí estão incluídos vários recortes de imprensa da época. Como este:
Mas como são feitos esses quadros e o que representam?’, perguntarão V. Ex.as. É difícil responder, e se recorro ao título dos mesmos, julgo que ainda é pior.” Maria Andrade, A Luta.
Só depois de se entrar no espírito de 1916 (a sala de exposições temporárias do Museu Soares dos Reis não tem rede e não serão permitidas fotografias, guarde o seu telemóvel) é que se entra na arte de Souza-Cardoso. Fotografias da exposição original, ainda ninguém descobriu se existem, o que significa que é impossível recriar exatamente a disposição das obras.
Dos 114 títulos que constam no catálogo feito por Souza-Cardoso, as comissárias, conseguiram identificar 91 — na época, o catálogo não tinha a fotografia da obra correspondente. Entre roubos e colecionadores que preferem não emprestar, as comissárias conseguiram reunir 81 obras, entre óleos sobre tela, pintura a cera, aguarela e desenho. Marta Soares explica que em Lisboa estará mais uma, “Luto, Cabeça, Boquilha”, atualmente emprestada numa mostra em Bruxelas.
amadeo souza-cardoso exposição porto
O Observador visitou a exposição ainda em montagem. Esta é a segunda sala. Ao todo há quatro, mais a entrada dedicada à contextualização de época. 
O primeiro quadro que o visitante vê é “Máscara de aço” (ver na fotogaleria), óleo sobre tela pintado entre 1915 e 1916. É o único retrato de um leitor que se conhece na obra do modernista e é também o quadro número um de acordo com o catálogo que Amadeo preparou sobre o evento.
O sr. Amadeu de Souza Cardoso, que não é um anormal, mas uma criatura de talento, expôs os seus trabalhos. A população portuense mobilizou-se para os ir apreciar.” Notícia de Vaz Passos, no Jornal do Comércio e das Colónias.
A maior parte do espólio está na posse da Fundação Calouste Gulbenkian e também do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante. Em maio, com o impulso da Gulbenkian, a obra do pintor português foi exposta em Paris, no Grand Palais, onde foi recordada a Exposição Universal de 1900. No catálogo dessa mostra, Sylvie Hubac, presidente da Réunion des musées nationaux, diz de Amadeo que “L’histoire de l’art a pourtant longtemps oublié son génie” (algo como “a história da arte tem desde há muito esquecido o seu génio”).
Numa entrevista ao jornal O Dia, Amadeo Souza-Cardoso proclamou a sua independência: “Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstracionista? De tudo um pouco. Mas nada disso forma uma escola.” Talvez tenha sido essa experimentação, talvez tenha sido o facto de ter morrido em Portugal a 25 de outubro de 1918, com apenas 30 anos, ainda a I Guerra Mundial não tinha terminado. Certo é que a notoriedade que Amadeo conheceu em vida foi caindo no esquecimento após a sua morte. A história parece finalmente querer aprofundar a obra que deixou.
exposição madeo souza-cardoso porto
Na última sala da exposição há uma vitrine com objetos que fizeram parte da vida de Souza-Cardoso e que ajudam a contar a sua história de vida.  
Organizada pelo Museu Nacional Soares dos Reis e pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, Amadeo de Souza-Cardoso, Porto-Lisboa-1916-2016 fica no Porto até 31 de dezembro. Depois, fará uma viagem semelhante à de 1916, rumando à capital. Não à Liga Naval de Lisboa, no Largo Calhariz, já extinta — hoje uma agência da Caixa Geral de Depósitos, mas ao Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, onde ficará de 12 de janeiro a 26 de devereiro de 2017. 100 anos depois, quem sabe não há algum visitante a fazer as mesmas críticas de 1916:
Está o pintor como certos políticos… Também não há ninguém que os perceba.Opinião.
Aquilo não é ‘abstracionismo’, é ‘obstrucionismo‘”, jornal A Montanha.

 observador.pt

31.10.16

Depois da morte, eles limpam o que ninguém quer limpar


antonio garrochinho




AVISO


Este artigo contém linguagem e descrições que podem ferir a sensibilidade dos leitores


"João" morreu em casa. Sozinho. O cheiro denunciou no prédio que algo estava mal. Depois de retirado o cadáver, havia que limpar tudo: odor, fluidos, sangue. E é aí que o telefone toca na Deathclean.

Quando a realidade se inspira na ficção

O “passa-a-palavra” contra o desconhecimento

Uma questão de “estômago”


Sente-se um odor nauseabundo, intenso, a sangue e putrefação. Um odor que se entranha nas roupas, ao respirar, que repugna. Sente-se à entrada de um velho prédio em Almada, logo no átrio, e antes mesmo de subir as escadas que terminam no rés-do-chão. Foi por causa do cheiro, primeiro ligeiro, depois mais intenso a cada dia, que os vizinhos souberam da morte de “João”, nome fictício. Ou que desconfiaram que algo de estranho acontecera naquela casa, habitualmente de vidraças fechadas e estores corridos. “João” era finlandês. Vivia em Portugal há 17 anos. Há quatro que habitava aquele apartamento arrendado em Almada, onde chegou depois de se separar da mulher, portuguesa.

Maria Antónia é vizinha do terceiro piso. Conta que “João” sempre fora “discreto e de poucas conversas, mas educado”, que estaria a pensar mudar de casa e voltar à Finlândia o quanto antes. “O senhor uma vez confidenciou-me aqui na escada que não tinha dinheiro para voltar. E não queria estar a pedir à família que tinha lá fora. Ele fazia desenhos para livros ou lá o que era”, explica-nos. “João” era ilustrador. Conceituado na Finlândia, sem emprego e sustento em Portugal. Tinha 53 anos. A vizinha não desconfiou que tivesse morrido. Pelo odor, não. “Sabe, é que tenho uma doença: não tenho olfato, nadinha, nadinha. Os vizinhos, sim, queixavam-se muito. Mas a quem é que haveríamos de ligar? Ninguém tinha o contacto da ex-mulher dele. E ele não tinha mais ninguém cá…”

Estávamos em agosto. Entrou setembro, vieram dias abrasadores, e permanecia o cheiro. Adensava-se. Da escada do prédio, do átrio, propagou-se às casas através das cozinhas e da ventilação. A ex-mulher de “João” (que com ele viveu quase vinte anos) visitava-o amiúde. Chegou a levar-lhe uma refeição em agosto. Apesar de separados, sempre mantiveram o contacto. E esta guardava-lhe uma cópia da chave de casa. Quando soube das reclamações dos vizinhos, e suspeitando do pior dos cenários, a morte, resolveu entrar no apartamento e procurar pelo ex-marido. “João” morrera mesmo. Estava no quarto, deitado sobre a cama, irreconhecível. O corpo entrara em putrefação. Havia morrido há perto de uma semana. Aparentemente, “João” falecera de causas naturais.

A trasladação, a pedido da irmã — que entretanto foi contactada pela ex-mulher e viajou até Portugal –, prolongou-se na burocracia, mas “João” voltaria mesmo à Finlândia. Contudo, mesmo depois de o corpo ser retirado do quarto onde o ilustrador dormia e trabalhava sobre um estirador e rodeado de pincéis, o cheiro permaneceu no prédio. Foi afixado pela administração um aviso na entrada: “Avisa-se os moradores do prédio que referente do r/c f. esq. ao mau cheiro está dependente do tribunal, pedimos desculpa pelo incómodo”.

Mas como resolver então o problema do mau cheiro? Um familiar de “João” chegou a acordo com o senhorio da casa: custearia a limpeza do quarto onde o finlandês morrera, levaria todo o acervo do ilustrador de volta à Finlândia, alguns pertences também, e a casa poderia voltar a ser arrendada. Esse familiar ligou então para a Deathclean. Pouco depois, um técnico da empresa visitaria a casa. Fez um orçamento, o orçamento foi aceite, e foi colado no próprio dia um cartaz (de um proeminente amarelo) na porta de entrada do rés-do-chão:














Passou-se um dia apenas desde que o telefone tocou. Era manhã cedo. O furgão da Deathclean (não engana: o lettering é garrafal e as fotografias à “CSI”) estacionou em frente do prédio e começou a descarregar material, primeiro os caixotes para o que é lixo, depois equipamento para extração de odores e purificação do ar, um aparato que preencheu em minutos o estreito átrio do prédio. Os técnicos — quase sempre dois nestes trabalhos –, mesmo antes de entrarem na casa de “João”, equiparam-se com fatos, luvas, máscaras e óculos, sem ponta de pele que se lhes visse. Quando o primeiro deles põe a chave à fechadura e abre a porta, o odor sai – é ainda mais intenso do que antes. Apressa-se a fechá-la, procura o interruptor, acende a luz, corre para cima os estores e escancara as janelas.


Foi depois de ver o filme “Cleaner” que Pedro Badoni resolveu criar a única empresa em Portugal que faz o que a Deathclean faz: limpar o que outros não querem (ou não podem) limpar
ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR
7 fotos
Por todo o lado, logo na primeira assoalhada, talvez fosse a sala de “João”, não se vê nada, nem mesas, nem cadeiras, apenas caixotes de cartão amontoados e alguma roupa pendurada num bengaleiro. O malogrado ilustrador estaria realmente a mudar-se, como contara a vizinha Maria Antónia. Na cozinha deixou latas de atum, última refeição que terá feito. Ao lado, a insulina de que era dependente — “João” sofria de diabetes –, também medicação para a gripe, e peixe descongelado (então apodrecido e rodeado de moscas) que nunca haveria de comer. O calendário nunca voltou a página do mês: assinalava agosto, com uma marca deixada sobre um dos dias, o 23. O espaço da casa é exíguo. A assoalhada que falta é a do quarto onde “João”, aparentemente, morreu sozinho dias antes. A cama está ensanguentada. O chão em redor também. O corpo terá expelido sangue e fluidos (em alguns casos, durante a decomposição, o abdómen pode até explodir devido à acumulação de gases) dias após a morte.

Quando a realidade se inspira na ficção

Os técnicos da Deathclean começam por retirar os lençóis ensanguentados que estão sobre o colchão. É tudo colocado em caixotes, que mais tarde seguirão para incineração. Não pode ser de outro modo: há risco biológico nos processos de decomposição e há que eliminá-lo. O colchão, também ele repleto de sangue, é recortado, morosamente, de ponta a ponta, até só sobrarem as molas do interior. O que é tecido e esponja será incinerado; o metal seguirá para reciclagem, mas devidamente acondicionado: nada do que é retirado pelos técnicos é deixado no lixo doméstico. Do soalho são removidos todos os tacos ensanguentados, um por um, até que sobre apenas o cimento – e mesmo esse, não sendo retirado, será limpo com produtos de desinfeção que vão remover a coloração de sangue e a contaminação.

O que a empresa faz é simples de explicar: limpa o que outros não querem (ou não podem) limpar. Mas que empresa é esta, quase saída de um filme ou série de crime hollywoodescos? Deixemos a casa de “João” e recuemos a meados de 2008. Então, e depois de ver o filme “Cleaner”, sobre um especialista em limpeza de cenários de crime em Los Angeles, Pedro Badoni resolveu criar a única empresa em Portugal que faz o que a DeathClean faz. Em Portugal e não só. “O que nós fazemos é a limpeza, desinfeção e descontaminação de locais onde ocorreu uma morte – seja ela natural, acidental, por suicídio ou homicídio. A morte é o nosso ‘core business’, digamos assim. Ou seja, atuamos em cenários de risco biológico, mas também podemos atuar em cenários de risco químico, radiológico e nuclear — mas esses são menos comuns no dia-a-dia. Quando vi o filme [‘Cleaner’], deu-se o click e resolvi criar a empresa. Desde logo, porque não havia nenhuma empresa neste mercado em Portugal. Nem na Europa…”, explica Pedro, lembrando que é sobretudo nos Estados Unidos que o mercado existe “há muito tempo”.

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Foi precisamente nos Estados Unidos que procurou formação e certificação antes de criar a Deathclean. E explica: “Eu sempre trabalhei na área da proteção civil. E quando me deslocava a um cenário que envolvia morte, perguntava-me: quem é que vai limpar isto? Mas eu não poderia simplesmente abrir uma empresa de limpezas domésticas. O que nós fazemos não são limpezas domésticas. Eu precisava de saber como limpar locais contaminados, que produtos comprar, que equipamentos comprar, formar-me e formar quem trabalhasse comigo. E isto ainda demorou algum tempo. Foi um risco… Em Portugal desconhecia-se – e ainda se desconhece – a existência do serviço que prestamos. Sabia que teria que investir muito dinheiro, mas não sabia se algum dia recuperaria esse investimento.”

Mas recuperou. Pouco depois da Deathclean ser criada, um mal veio por bem. Para a empresa, claro. “O ano de 2009 foi o ano do H5N1, a ‘gripe das aves’, e começámos logo a ser muito contactados por causa disso, para fazer desinfeção. Mas este é um trabalho em constante atualização. Não podemos, lá porque fomos muito contactados em determinada altura, parar. Muito mudou de então até hoje. Surgem equipamentos novos, produtos de limpeza novos, e vou pelo menos uma vez por ano aos Estados Unidos fazer formação. Nem dez trabalhos pagam o investimento que fazemos todos os anos”, lembra Pedro Badoni.

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O “passa-a-palavra” contra o desconhecimento

É quando o telefone toca, e toca 24 horas por dia, na sede da Deathclean em Setúbal, que começa tudo. Ao local, e em qualquer local do país, desloca-se um técnico, que fará uma relatório do caso, apresentará um orçamento, e logo depois (assim o cliente o aceite) começa a limpeza. Mas nem sempre os clientes aceitam. Por desconhecimento. Por pressa.

— Incomoda-o que empresas não especializadas — de limpezas domésticas, por exemplo — façam o mesmo trabalho que vocês fazem?
— Incomodar, não incomoda. Mas pergunto-me sempre como é aquele local vai ficar. Não ficará igual. O risco biológico existe. Isto não se faz com uma esfregona e um balde…

Uma coisa é certa: orçamentos por telefone e serviços “pela metade”, não. E Pedro Badoni explica porquê: “As pessoas pensam que o que fazemos é um serviço rápido. Não é. Pode demorar dois, três dias. Às vezes mais. E pensam que é simples, que é só atirar um preço para o ar. Também não é. Tanto pode custar cem euros, como cinco mil. Não fazemos orçamentos por telefone. É preciso conhecer o local e o que nele aconteceu.”

Mas não se pense que só os particulares é que desconhecem o que a Deathclean faz. “Eu recordo-me de um hospital particular que nos contactou e que queria fazer a desinfeção de um bloco operatório. Dissemos-lhes que seria necessário fazer a avaliação do local, que só depois disso é que poderíamos começar. O que fizeram? Optaram por uma empresa de limpezas domésticas. Não pode ser…”, lamenta o diretor da empresa, recordando que nem sempre os hospitais podem fazer tais escolhas: “Quando o ébola se tornou um problema sério em Portugal, em meados de 2014, recebíamos telefonemas diários de hospitais que esperavam receber ou tinham recebido pacientes infetados. Alguém acredita que uma mera empresa de limpezas domésticas sabe como lidar com o ébola? Estão a colocar a vida dos outros em risco, mas também a deles.”

Quanto a Deathclean chega a um local, como a casa de “João” em Almada, o aparato é muito, causando estranheza e espanto. É sempre assim. “Lembro-me do caso de um senhor que se suicidou em casa, em Algés. Foi o cunhado que nos contactou. Quando chegámos ao local, e havendo sangue por todo o lado, foi necessário instalar uma luz ultravioleta, a 360º, para detetar cada gotinha de sangue e limpar. Quando dei por mim, tinha o cunhado do senhor atrás de nós, a fotografar tudo. E disse-me: ‘Nunca pensei que isto fosse assim!'”, conta Pedro Badoni. Mas nem todos os clientes pensam da mesma forma. “Há casos e casos. Há cenários tão, mas tão caóticos, que ninguém pode imaginar o que nós encontramos neles. Este ano, em Portalegre, na altura de maior calor, houve uma pessoa que morreu em casa, o corpo acabou por ‘rebentar’ e aquilo mais parecia um lago. Muito pior do que o que vimos em Almada. Ninguém pode imaginar, a sério. Era necessário remover o chão — um chão de corticite que absorveu o sangue todo, os fluidos corporais todos. O senhorio não quis. Queria à força manter o chão de corticite. O que fizemos? Não fizemos. Expliquei-lhe que a não-remoção do chão implicaria um risco biológico elevado. Não se importou. E acabámos por ir embora”, lembra.

Os furgões da Deathclean são publicidade ambulante. “Às vezes, na autoestrada, vemos os carros a ultrapassar-nos e a tirar fotografias”, lembra, gracejando, Pedro Badoni. Mas a verdadeira “publicidade” da empresa é aquilo a que chama “passa-a-palavra”. “No começo, e ainda hoje, o serviço funcionava por passa-a-palavra. Ninguém sabia quem éramos. Mas não era um passa-a-palavra de cliente para cliente. ‘Olhe, o meu vizinho matou-se aqui ao lado, um outro vizinho falou-me de vocês, venham cá…’ Não é assim. Normalmente são as autoridades locais que aconselham a Deathclean aos clientes.”

A pergunta impõe-se: mas as autoridades podem “aconselhar” assim uma empresa que é privada? “Eu entendo a pergunta. O que eles estão a fazer é aconselhar a única empresa que faz o que nós fazemos em Portugal. Se alguém tem um acidente e o único hospital próximo é privado, as autoridades vão dizer-lhe que aquele hospital está à disposição. É isso que as autoridades estão a fazer. O nosso serviço, sendo privado, é de utilidade pública. É a saúde pública que está em causa”, explica o responsável pela Deathclean.


Uma questão de “estômago”

Voltemos a Almada e à casa de “João”. Ao final da tarde, o problema da contaminação está quase resolvido. É altura de purificar e desodorizar o ar, o que ainda demorará “um, dois dias”. Para os técnicos (e para Pedro, que os acompanhou nesse dia) foi another day at the office. Mas é preciso ter “estômago”, não? “Esta foi uma decomposição mais ou menos fácil — a contaminação ficou-se pelo quarto –, mas o trabalho mais difícil vai ser o do odor, porque o corpo esteve muito tempo fechado em casa. Vou ser sincero: isto não me impressiona. Não que não tenha sentimentos. Mas quer eu, quer os técnicos, trabalhámos como bombeiros sapadores e estamos habituadas a ver cenários destes. Quer dizer, há um dos técnicos — ele não está aqui hoje — que não consegue lidar muito bem com sangue. Então, sendo ele mais sensível, atua sobretudo em casos de insalubridade, de acumulação compulsiva de lixo — e em que também há risco biológico, claro”, conta.





















Pedro Badoni foi pronto a responder: a ele, pouco o “impressiona” na morte. Mas depois hesita. “Hmmm…” E recorda-se de um caso: “Na verdade, houve um que me impressionou. E impressionou-me, não tanto pelo cenário que encontrei, mas pelo contexto. Foi no Infantado, em Loures. Em 2012, salvo erro. O namorado de uma mulher matou-a no carro, subiu para casa dela, entrou no quarto do filho que estava a dormir e matou-o também. A morte foi com um haltere — daqueles de ginásio — e havia sangue esguichado por todo o lado, nas paredes, na cama. Quando cheguei ao quarto e vi aquilo, olhei em volta, as paredes tinham pósteres de surf, livros da escola, era o quarto de um adolescente que morreu, inocentemente, talvez sem se aperceber o que lhe aconteceu. Quando é uma morte natural, quando é um suicídio: é uma infelicidade. Mas não tão impressionante. Este caso foi.”

Há outro caso que Pedro Badoni recorda. Foi na Cova da Moura. Um suicídio. Nestes casos, ao risco biológico há um outro que lhe está associado: o do trauma dos familiares. “O senhor suicidou-se na cozinha, ao pé da máquina de lavar. Estava tudo contaminado com sangue. Sabe o que é que a delegada de saúde disse à filha do senhor? Para ir comprar uma esfregona e para lavar aquilo com água e sabão. Às vezes sugerem que se lave tudo com lixívia. Primeiro, isso nunca removeria a contaminação na totalidade. Nós não utilizamos água e sabão, como é evidente. E depois, a filha, antes de nos contactar, nem dormia a pensar que teria que limpar o sítio – e o sangue – onde o pai se suicidou. Ninguém tem que lidar com isso. Muito menos uma filha. É também por isso que nós existimos”, recorda.

Maria Antónia nunca abandonou o átrio do prédio durante todo o tempo em que a Deathclean esteve na casa de “João”. E por entre uma espreitadela ou outra para o interior da casa do vizinho finlandês, atirou: “Não havia dia em que o senhor não saísse de casa. Dizia-me olá, conversávamos um bocadinho, e depois lá ia fazer o que tinha a fazer e voltava.” A vizinha do quarto piso segue vagarosamente até à caixa do correio. Abre-a. Está vazia. E despede-se: “É pena, é pena… Olhe: agora vou ver se estico eu um bocadinho as pernas. É a médica que me obriga. Tenho osteoporose. Qualquer dia estes senhores [Deathclean] vêm-me cá limpar a casa a mim! Sabe que idade eu tenho? 91 anos. Mas não parece…

observador.pt

31.10.16

ENTREVISTA COM JOÃO OLIVEIRA (PCP) - João Oliveira: “Separa-nos um mundo de coisas do Bloco”


antonio garrochinho



João Oliveira diz que o Bloco não tem um projecto claro. Diz que o OE é do PS. E aponta o caminho: é preciso que o Governo lute pela dissolução do euro.
João Oliveira, líder parlamentar do PCP, reconhece, em entrevista ao Observador, que este Orçamento tem “aspetos muito positivos”, mas recusa-se a pôr o selo do partido na proposta: apesar das importantes contribuições do PCP, este “é um Orçamento do Governo do PS, que corresponde às opções do PS, e que não deixa de incorporar as próprias limitações e insuficiências que resultam das opções que o Governo do PS faz”.
João Oliveira fala também sobre o Bloco de Esquerda e o episódio em que sugeriu que o partido coordenado por Catarina Martins espalha com as patas o que outros juntam com o bico. “A forma como foi utilizada aquela metáfora mantém-se inteiramente adequada”, reitera, antes de se demarcar do Bloco: “Separa-nos um mundo de coisas”.

Pensões. “Não tivesse sido a persistência do PCP ainda estávamos a discutir cortes”

Em 2014, o PCP propôs um aumento mínimo de 25 euros para as pensões mais baixas. Dois anos depois, este Orçamento deixa as pensões mais baixas fora do aumento extraordinário. Existe aqui uma incoerência?
Não. O PCP bateu-se pelo um aumento do valor real das pensões e continuou a bater-se por esse aumento ao longo dos anos e se não tivesse sido a persistência do PCP se calhar ainda estávamos a discutir cortes nas pensões. Pela primeira vez em sete anos estamos a discutir a possibilidade de um aumento real do valor das pensões e isso, do nosso ponto de vista, não está desligado da insistência do PCP e dessa coerência do PCP.
Mas não era este o aumento de pensões que o PCP ambicionava…É verdade. A proposta que está incluída no Orçamento do Estado não corresponde integralmente à nossa proposta, mas nem por isso ela pode ser desvalorizada ou o nosso esforço diminuído. Aliás, em 2015, batemo-nos sozinhos por esse aumento de dez euros em todas as pensões — precisamente para que não houvesse problemas de injustiça relativa que agora estamos a discutir. Insistimos nessa questão quando outros se davam por satisfeitos com o descongelamento, quando outros entendiam que não se justificavam soluções de aumento das pensões a não ser as pensões mínimas. Agora, a opção do Governo foi outra e não corresponde integralmente à proposta do PCP. Mas, ainda assim, 85% das pensões e a reformas do regime geral da Segurança Social têm essa perspetiva de aumento de dez euros. É uma proposta que, não correspondendo integralmente à nossa, não pode ser desvalorizada.
Quando diz que outros se contentavam com um aumento de pensões inferior refere-se ao Bloco de Esquerda?Ao Bloco de Esquerda e ao PS. No debate do último Orçamento do Estado, o PS e o Bloco de Esquerda davam-se por satisfeitos com esse descongelamento automático das pensões, que avaliámos como positivo mas muito insuficiente em relação às necessidades dos pensionistas. Durante quatro anos, PSD e CDS trataram apenas de atualizar as pensões mínimas, que uma boa parte não corresponde a carreiras contributivas. E isto tem um objetivo: que era desvalorizar o sistema da Segurança Social para que as pessoas não encontrassem qualquer tipo de vantagem na existência de um regime contributivo.
"No Orçamento do Estado para 2016, PS e Bloco de Esquerda pura e simplesmente desistiram da perspetiva de haver aumento real [nas pensões]. Foi o PCP que assegurou essa discussão"
Acompanha as críticas de PSD e CDS quando acusam o atual Governo de insensibilidade social por ter deixado de fora deste aumento extraordinário as pensões mínimas das mínimas?Como disse: a proposta do PCP permitiria que esse problema nem sequer se tivesse colocado. Não podemos dar crédito a esse discurso do PSD e do CDS. Aquilo que eles queriam era que não houvesse qualquer aumento. Com PSD e CDS houve cortas nas pensões. Houve degradação das condições de vida dos pensionistas e dos reformados. Houve uma troca do Complemento Solidário para Idosos (CSI) pelo aumento das pensões mínimas. Neste caso, PSD e CDS comportam-se em relação aos pensionistas e aos reformados um pouco como o lobo mau disfarçado de avozinha. Esse discurso não é para levar a sério.
É contraditório o facto de a Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES) acabar este ano para as pensões mais altas, ao mesmo tempo que as pensões mínimas não têm aumento extraordinário?A CES era um corte ilegítimo de pensões. Fosse qual fosse o valor a que se aplicava. As pessoas que têm pensões mais altas também descontaram para elas. As pessoas que têm pensões mais altas também fizeram descontos mais altos. A CES era um corte injusto porque cortava pensões para as quais as pessoas tinham contribuído. De resto, PSD e CDS votaram a favor do fim da CES. Foram obrigados a reconhecer a ilegitimidade dos cortes que tinham feito nas pensões.
“Falar de pensões mínimas não é falar de pensionistas pobres”, Vieira da Silva, ministro da Segurança Social, disse-o no Parlamento. Reconhece-se nesta afirmação?Julgo que aquilo a que o senhor ministro se estava a referir é uma circunstância que está identificada há muito tempo: o facto de haver quem receba uma pensão mínima quando há aufere outros rendimentos. Essa circunstância é uma circunstância residual, mas existe. É preciso perceber exatamente do que se trata. Porque qualquer ideia de corte nas pensões contributivas não é aceitável.
O PCP está disposto a aceitar a aplicação de condição de recursos nas pensões mínimas?É conhecida a posição do PCP de desacordo com a aplicação de recursos. De resto, a condição de recursos do decreto-lei 70/2010 foi um instrumento para atingir o objetivo de redução das prestações sociais. O problema que está hoje colocado a milhares de reformados que veem contabilizados como seus rendimentos rendimentos de familiares seus com os quais não contar é uma evidente injustiça. Além disso, é conhecida também a nossa posição de desacordo em relação à aplicação de condição de recursos a prestações contributivas. A discussão sobre a aplicação da condição recursos nunca nos foi colocada pelo Governo. Se, eventualmente, o Governo vier a avançar com essa ideia, então tomaremos posição em função da proposta concreta.
"PSD e CDS comportam-se em relação aos pensionistas e aos reformados um pouco como o lobo mau disfarçado de avozinha"

Sobretaxa. “Sempre dissemos que, por nós, a questão da sobretaxa estava resolvida”

Sobre o fim faseado da sobretaxa. Vou citar uma declaração que fez a 11 de outubro de 2016, três dias antes de o Governo entregar a proposta no Parlamento: “A sobretaxa do IRS deve acabar imediatamente. Está previsto em decreto-lei que em janeiro de 2017 é eliminada”. O que mudou?O que é mudou como? Não foi o PCP que apresentou a proposta. Não mudou nada.
Sim, mas então o que é que falhou nas negociações?Não mudou nada. Isso corresponde a uma opção do Governo. A inclusão da sobretaxa no Orçamento do Estado é uma opção do Governo. A opinião do PCP é diferente. Sempre dissemos que, por nós, a questão da sobretaxa estava resolvida, como ficou resolvida em 2015. Essa solução foi aquela para a qual contribuímos e com a qual estamos confortáveis. Há necessidade de obtenção de receita no Orçamento do Estado? Consideramos que devem ser procuradas outras alternativas, nomeadamente na tributação sobre o capital: a derrama estadual para as empresas que têm mais de 35 milhões de lucros é uma hipótese; o imposto sobre o património mobiliário; o imposto sobre as transações financeiras; ou mesmo o novo imposto imobiliário, que tem espaço para acautelar uma mais justa tributação de valor elevado. Portanto, existem várias alternativas que têm de ser consideradas e continuaremos a insistir.
Mas o Governo socialista não mostrou abertura para acolher algumas das propostas do PCP?Fomos discutindo isso ao longo do tempo. O Governo conhece a nossa posição relativamente à sobretaxa e optou por incluir essa proposta no Orçamento do Estado. Há agora que prosseguir o exame comum relativamente a essa questão e a muitas outras. Entendemos que é essencial, em matéria de política fiscal, introduzir elementos de justiça fiscal. Tributar de forma mais adequada e mais determinada os rendimentos mais elevados, em particular os rendimentos do património, e introduzir medidas de alívio dos impostos sobre os rendimentos mais baixos ou sobre os rendimentos do trabalho.
Ainda no IRS. A revisão do número de escalões no IRS fazia parte dos acordos à esquerda, mas ainda não será concretizada neste Orçamento. O PCP desistiu desta reivindicação?Não. Continuamos a bater-nos por ela e estamos convencidos que a nossa insistência vai dar frutos. Apesar dos passos que foram dados, há ainda um caminho longo a fazer.
Mas em termos de calendário: a revisão dos escalões do IRS é uma prioridade para 2018?Vamos continuar a insistir. Obviamente que temos noção do problema que temos pela frente, depois de PSD e CDS terem aumento em mais de 30% os impostos sobre os rendimentos de trabalho. Isso significa que o peso dessas alterações é muito significativo do ponto de vista orçamental. Mas nós não nos deixaremos de bater por ela.
Mas seria uma grande derrota para o PCP chegar ao final desta legislatura sem a revisão dos escalões do IRS?Não temos ilusões relativamente aquilo que esta relação de forças permite ou não, não temos ilusões relativamente às dificuldades e às limitações com que estamos confrontados e também sabemos que as medidas que são aprovadas não dependem só do PCP. Aliás, se elas dependessem só do PCP provavelmente muitos problemas estavam resolvidos, incluindo esse. Mas sabemos que quem tem maioria na Assembleia da República não é o PCP e portanto, se alguma coisa não avançar, não vai ser por falta de persistência do PCP.
Outro tema. E volto a citá-lo: “Por princípio os impostos indiretos sendo impostos injustos que recaem sobre toda a gente da mesma forma, independentemente dos rendimentos de cada um, não devem ser uma opção em matéria fiscal, quando se procura introduzir elementos de justiça fiscal”. Mas não é isso que está a acontecer? Uma substituição progressiva dos impostos diretos por impostos indiretos?Há uma diferença objetiva em relação às opções do PCP e as opções do Governo. Mas em relação aos impostos indiretos, com duas ou três exceções, nomeadamente nas bebidas açucaradas e no chumbo das munições, aquilo que existe é uma opção do Governo de atualizar as taxas dos impostos em função do valor da inflação. Não há propriamente uma perspetiva de aumentar as taxas. De resto, continuamos a considerar isso mesmo que acabou de citar: os impostos indiretos são impostos socialmente injustos. E entendemos que por isso o seu peso deve caminhar para se reduzir e não para aumentar. Se tributar de forma mais firme as grandes empresas e os grandes grupos económicos e financeiros, se se encontrarem medidas que tributem o património mobiliário — as ações, os títulos e outros elementos que não estão sujeitos a tributações — obviamente que há um reforço da tributação sobre o capital que não é indiferente do ponto de vista social. Se essa situação não se alterar não há de ser por opção do PCP.
"Não temos ilusões relativamente às dificuldades e às limitações com que estamos confrontados e também sabemos que as medidas que são aprovadas não dependem só do PCP. Aliás, se elas dependessem só do PCP provavelmente muitos problemas estavam resolvidos"
Com a introdução do novo imposto sobre património imobiliário, uma parte do património do PCP será afetado pela medida. O partido pretende introduzir alguma alteração?Essa situação é um bom exemplo da seriedade com que estamos na política. Defendemos as nossas propostas por consideramos que são as mais justas e não propriamente voltadas para o nosso umbigo e a pensar naquilo que seria mais conveniente. O PCP pagou 29 mil euros no ano passado relativamente a imóveis que não estão afetos à atividade partidária. Portanto, face à evolução das regras do novo imposto, esses imóveis que não estão isentos de IMI terão necessariamente de ser considerados no quadro da aplicação desse imposto. O PCP fará aquilo que sempre tem feito: que é pagar os impostos a que a lei o obriga.
A atual proposta do OE prevê um corte de mais de 2,5 milhões na indemnização compensatória à agência Lusa. Se o PCP não fizesse parte desta solução aceitaria uma medida desta natureza?Vamos intervir sobre essa questão e vamos procurar obter o esclarecimento junto do Governo relativamente a essa opção. A necessidade de financiamento da Lusa e da RTP são necessidades absolutamente decisivas para assegurar o serviço público. Não encontramos justificação [para este corte], mas vamos obviamente procurar intervir para que essa questão possa ser esclarecida e para que esse problema possa ser ultrapassado.
E para reverter essa decisão?Sim, obviamente.

Euro. “Portugal não pode sujeitar-se eternamente à chantagem”

Mário Centeno classificou a atual proposta de Orçamento como “um Orçamento de Esquerda”. O PCP garante que este Orçamento é do PS. Afinal, é ou não um Orçamento de esquerda?Parece-me que é evidente: é o Orçamento do Governo que o apresenta que é do PS. O processo de discussão e de exame comum do Orçamento que o PCP fez com o Governo resulta do compromisso que assumimos na posição conjunta. Nuns casos há mais coincidência, noutros casos não há qualquer coincidência. Portanto, é um Orçamento do Governo do PS, que corresponde às opções do PS, e que não deixa de incorporar as próprias limitações e insuficiências que resultam das opções que o Governo do PS faz. Quando o Governo aceita as metas orçamentais impostas pela União Europeia e pelas regras da Zona Euro, quando o Governo se recusa a renegociar a dívida pública, quando o Governo se recusa a fazer a reversão das PPP ou a enfrentar o grande capital, é óbvio que isso são opções que o Governo faz que limitam a capacidade de reposta a problemas que estão identificados.
Mas o PCP revê-se neste Orçamento? Qual é apreciação o partido faz?A apreciação do Orçamento tem de ser feita de forma global. Em relação a isso, temos uma resposta tão complexa quanto complexo é Orçamento. Há elementos muito positivos, mas também há elementos de preocupação e de discordância. Consideramos que tende a avolumar-se a contradição entre aceitação das imposições da União Europeia e do Euro e a opção de não enfrentar o grande capital e a procura por resolver os problemas estruturais do país. Não conseguiremos criar emprego de forma sustentada se não tivermos uma política de apoio aos setores nacionais, de apoio à produção nacional, de aumento de investimento público. [Esta opções] são contraditórias com a aceitação das metas orçamentais e com a não renegociação da dívida. Isso não significa um beco sem saída. Significa é que essa contradição que se avoluma terá que ter um desfecho. E se o desfecho for soçobrar perante as imposições da União Europeia e perante os constrangimentos da dívida então ficaram por responder os problemas do país. Entendemos que a opção deve ser outra: deve ser enfrentar essas limitações, enfrentar esses constrangimentos e renegociar a dívida para que os problemas económicos e sociais possam ter uma perspetiva de solução que não seja uma perspetiva de paliativos.
"Este é um Orçamento do Governo do PS, que corresponde às opções do PS, e que não deixa de incorporar as próprias limitações e insuficiências que resultam das opções que o Governo do PS faz"
Acredita honestamente que há condições para que o Governo português contrarie as imposições da União Europeia e renegoceie a dívida sem que isso signifique sair do Euro?Sem se tomar uma atitude nesse sentido nós nunca saberemos qual é a reposta que vem do outro lado. Ou seja, se Portugal for sucessivamente aceitando as imposições que nos são feitas, se Portugal nunca resistir, nunca saberemos qual é a resposta. Podemos prever e prevenir alguns dos indícios que existem relativamente a essa resposta. Mas a questão fundamental não é saber se nos sujeitamos a ameaça eternamente — porque Portugal não pode sujeitar-se eternamente à chantagem sob pena ficar sujeito a um eterno declínio nacional. A questão central que há a fazer é outra: o que precisamos de fazer para resolver os problemas do país. Mais do que sabermos qual é o custo de aceitarmos a chantagem ou de a enfrentarmos o que precisamos de saber é até onde estamos dispostos a deixar afundar o país ou até onde estamos disponíveis a ir para o recuperar.
Mas a proposta do PCP é clara e conhecida há muito tempo: o país deve tomar as medidas necessárias para se libertar da submissão ao euro…Isto é mais do que um ato. Isto é um processo. Um processo que implica medidas de preparação económica, de preparação da estrutura do país para aguentar uma solução que tanto poder ser tomada por nós como nos pode ser imposta por outros. Sendo que essa questão do Euro nem se coloca apenas de saber qual é a resposta unilateral do país. A proposta que o PCP tem apresentado vai no sentido de que o Governo português tome as medidas necessárias para a dissolução da moeda única. Ora, sair do Euro ou dissolver o Euro são coisas diferentes.
Mas tem a ideia de quanto custaria sair do Euro? Faço esta pergunta sabendo que me vai responder que custa mais ao país estar no Euro do que fora dele…Não. Diria que a resposta a essa pergunta depende da forma como nos preparamos para isso. Ou seja, se tivermos um país preparado económica e politicamente, certamente os custos serão menores…
Mas como é que se prepara um país economicamente para isso?Olhe tomando medidas para garantir que do ponto de vista alimentar não estamos dependentes do estrangeiro — aliás, porque temos condições do ponto de vista alimentar para não ser um país dependente do estrangeiro e hoje somos. Do ponto de vista do controlo dos setores estratégicos nos transportes, nas telecomunicações, da energia, mesmo no setor financeiro, garantindo que esses setores estratégicos não estejam nas mãos de grandes grupos económicos dominados pelo capital estrangeiro — sendo setores estratégicos eles têm de estar sob controlo nacional para podermos concretizar uma política de defesa do interesse nacional e não de subjugação aos interesses desses grupos. Ou do ponto de vista de bens essenciais, na Saúde e nos bens alimentares, por exemplo, implica que sejam tomadas medidas para garantir que há condições para assegurar de forma sustentada a satisfação das necessidades básicas dos portugueses.
A contradição tenderá a avolumar-se. Isso não significa um beco sem saída. Significa é que essa contradição que se avoluma terá que ter um desfecho. E se o desfecho for soçobrar perante as imposições da União Europeia e perante os constrangimentos da dívida então ficaram por responder os problemas do país"

A relação com o Bloco. “Separa-nos um mundo de coisas”

A coordenadora do Bloco de Esquerda classificou o salário que António Domingues vai auferir de “incómodo nacional” e exigiu “decência” nos salários dos gestores públicos. O PCP acompanha esta leitura?O PCP tem protagonizado ao longo de décadas uma batalha pela transparência e por regras adequadas de remuneração dos gestores públicos. Essa é uma matéria em que o PCP tem um lastro de intervenção na Assembleia da República que fala por si. A desadequação dos salários dos administradores da Caixa Geral de Depósitos e a natural indignação dos portugueses é obviamente uma conclusão que se tem de retirar daí com as necessárias iniciativas políticas que sejam necessárias para corrigir essa situação.
António Domingues também deixou de estar sujeito ao Estatuto do Gestor Público…Tal como já dissemos, entendemos que os gestores públicos devem estar sujeitos a regras de transparência e de cumprimento de obrigações no âmbito das suas funções que não devem ser postas em causa. Estamos a analisar a situação que resulta da não aplicação do Estatuto do Gestor Público para perceber quais são as medidas mais adequadas.
Arrepende-se de ter sugerido que o Bloco “espalha com as patas” o que os outros partidos “juntam com o bico”?Não. É a utilização de uma metáfora popular e acho que, como todas as metáforas populares, traduz uma síntese da realidade. Tenho ideia que a forma como foi utilizada aquela metáfora se mantém inteiramente adequada.
O Bloco tem sede de protagonismo?Essa é uma apreciação que caberá às outras pessoas fazer. Limitar-me-ia dizer que, na perspetiva do PCP, estamos mais interessados em que as boas soluções sejam concretizadas da melhor forma e não propriamente procurando obter ganhos próprios.
O que separa, neste momento, PCP e Bloco de Esquerda?Separa-nos um mundo de coisas. Separa-nos um projeto político que nós temos com clareza definido e que não se confunde com o combate por causas parcelares sem projeto político associado. E há um conjunto de matérias em que existem diferenças de posicionamento. Mas não creio que essa questão seja relevante. Sobretudo, porque aquilo que é verdadeiramente central no momento que viemos hoje é saber como damos resposta aos problemas do país.
"Estamos mais interessados em que as boas soluções sejam concretizadas da melhor forma e não propriamente procurando obter ganhos próprios"
Preferia ver o Juventude de Évora, clube da sua cidade, na primeira divisão ou ser eleito secretário-geral do PCP?Não, não. Isso nem é opção que se coloque. Só o primeiro é que é verdadeiramente uma opção. Gostava muito de ver o Juventude de Évora na primeira divisão.
Agora mais a sério: Jerónimo de Sousa é, neste momento, o líder partidário há mais tempo em funções. Não há aqui um problema de alternância?Creio que esses aspetos são secundários. De resto, é a primeira vez que me confronto com essa apreciação. Julgo que a duração dos mandatos é o aspeto menos relevante na consideração da decisão relativamente ao secretário-geral.
Mas vê-se na pele de futuro secretário-geral-adjunto de Jerónimo de Sousa?Não, de forma alguma. Aliás, essa questão nunca foi colocada nesta discussão preparatória do Congresso e relativamente à minha pessoa, então, mais descabida ela é.

observador.pt

31.10.16

Exposição destaca últimos dias no bunker de Hitler


antonio garrochinho


Reconstrução fiel do escritório do ditador no seu esconderijo subterrâneo é a principal atração da nova mostra em Berlim. Organizadores são acusados de tentar ganhar dinheiro fácil com a imagem do líder nazista.
Vários andares embaixo da terra, milhares de pessoas se amontoam no bunker sob a estação de trem Anhalter Bahnhof, em Berlim, e torcem pelo fim dos bombardeios. Os dias se passam sem comida, e as pessoas aguardam num espaço imundo e fedorento, cheio de fezes, esperando autorização para retornar à superfície.

A apenas dois quilômetros dali acontece uma grande festa. No Führerbunker, o bunker de Adolf Hitler, o clima é de alegria, ou de um relaxamento meio perverso de fim de mundo. Fato é que aqui a champanhe rola solta, como se a vitória estivesse próxima. A realidade não poderia ser mais diferente, mas, afinal, é o dia do aniversário do Führer.
Eram assim, extremos e inacreditáveis, os contrastes em Berlim nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial. Os dois bunkers já se tornaram atrações turísticas há muito tempo, mas agora a exposição Dokumentation Führerbunker quer mostrar como foram os dias finais no abrigo antiaéreo de Hitler.
Sem sensacionalismo
A nova atração do Berlin History Bunker, perto da Anhalter Bahnhof, foi inaugurada nesta sexta-feira (28/10). Ela evidencia essas contradições ao contrastar as paredes frias de concreto do abrigo antiaéreo civil com as generosas instalações do bunker de Hitler. Durante a visita guiada de uma hora e meia pelos subterrâneos históricos são contadas histórias da guerra que raramente são mencionadas em documentários sobre o nazismo.
A principal atração da nova exposição é o escritório de Hitler, o local onde, em 30 de abril de 1945, o ditador cometeu suicídio. O escritório foi reconstruído da forma mais fiel possível, apesar de estar há cerca de dois quilômetros do local original. Ele parece pequeno e atípico para um ditador conhecido pela megalomania. Sobre a escrivaninha está dependurado um retrato de Frederico, o Grande – mas até o ídolo de Hitler parece meio espremido nesse ambiente apertado.
"Isso aqui não é um showroom do Hitler, mas um projeto ambicioso de uma associação que se dedica à história. Por isso os visitantes não podem passar rapidamente através da exposição e ir logo para o escritório de Hitler. É necessário participar, antes, de uma longa visita guiada", explica Enno Lenze, da associação Historiale, responsável pela mostra.


O escritório onde Hitler passou seus últimos dias foi reconstruído em Berlim

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Lenze ressalta que a exposição não tem nada de sensacionalista. Ele é frequentemente acusado de querer ganhar dinheiro fácil usando o nome de Hitler, uma acusação que ele refuta com veemência. "Eu poderia ter comprado uma Ferrari com o dinheiro que investi nesse projeto. Mas preferi fazer algo útil com o dinheiro."
Wieland Giebel, presidente da associação, também afirma que a mostra visa exatamente o contrário do que muitos afirmam. "Não queremos um show sobre Hitler. Apenas queremos mostrar às pessoas como eram as coisas no fim da Segunda Guerra. Por isso também não permitimos que as pessoas entrem no escritório reconstruído de Hitler. Elas apenas podem vê-lo através de uma vitrine", explica.
"Não somos o museu de cera da Madame Tussauds. Lá as pessoas podem ver Hitler como uma figura, rodeada por astros pop e outros bonecos de cera. Quem quiser ver Hitler que vá para o Madame Tussauds."
Neonazistas
O mito criado em torno do bunker de Hitler, na última década, age como um ímã sobre os visitantes da capital alemã. Todos os dias, milhares de turistas procuram a placa no estacionamento da rua Gertrud-Kolmar-Strasse que sinaliza onde ficava a entrada do bunker.
Muitos berlinenses temem que esses lugares possam se tornar locais de peregrinação de neonazistas. Lenze sublinha que esse não é de jeito algum o propósito da exposição e descarta que neonazistas se interessem por ela. "Eles normalmente não querem ver onde Hitler morreu, até porque muitos deles acreditam que ele não morreu, mas que conseguiu escapar da Alemanha", argumenta.
"E mesmo se eles se interessassem, seria bom que viessem a um lugar como este para se informar sobre o que de fato aconteceu. Afinal, nós mostramos o extremismo como ele realmente foi."
De Berlim a Braunau
Lenze afirma que a exposição serve como local de esclarecimento e, assim, ajuda a combater o extremismo de direita. Giebel acrescenta que, durante os anos de trabalho da associação Historiale, apenas uma vez um pequeno grupo de skinheads visitou a exposição no bunker civil da Anhalter Bahnhof. Ele não acha que alguma coisa vai mudar agora, com a ampliação da exposição para o escritório de Hitler.
"O turismo em torno de Hitler e a peregrinação de extremistas de direita só serão combatidos se exposições como esta forem feitas. Aí desmistificamos o mito. Por isso, seria, na verdade, útil se as pessoas fizessem algo parecido na casa natal de Hitler, em Braunau, na Áustria." Em Braunau, após repetidos incidentes envolvendo neonazistas, o governo austríaco resolveu a casa natal de Hitler.

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